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Bingo no Meio Espírita, Mal Necessário?
Alkíndar de Oliveira

Até o momento em que escrevi este texto ainda não havia lido, em nosso meio, comentários sobre esse tema. Escrevi-o por crer que cabe aos espíritas interessados na unificação colocar em evidência – no momento apropriado e no local certo – temas que, no campo das idéias, sejam polêmicos. Esse posicionamento nunca deve ser no campo pessoal, pois sempre devemos respeitar as opiniões contrárias. Respeitar não necessariamente significa concordar, mas, sim, aceitar um ponto de vista que nos é contrário. Esse procedimento, isto é, o procedimento de aceitar um ponto de vista de outra pessoa, mesmo não concordando com o seu teor, chama-se (todos nós sabemos) tolerância, um dos pilares – segundo Kardec - da unificação espírita.

Se você é contrário à utilização do bingo no meio espírita, peço-lhe o favor de tirar do seu pensamento que vou procurar neste texto persuadi-lo a mudar de idéia. Exponho abaixo meu ponto de vista mais com o objetivo de mostrar que existem argumentos para tudo. É possível encontrar dezenas de argumentações a favor do bingo no meio espírita e dezenas de argumentações contrárias. Insistir em ser dono da verdade é gerar uma discussão inútil, improdutiva e, principalmente, prejudicial à causa da unificação.

Lembra-se daquele samba antigo que dizia: “O que dá prá rir dá prá chorar, depende só de peso e medida”? Pois é, cabe-nos a sensatez de, para o bem da unificação, entendermos que existem muitas faces da verdade.

Vamos ao tema:

No meio espírita, contracenando lado a lado com a pureza doutrinária, há a realidade da dureza monetária. Ambas implacáveis.

Há uma única forma de acabar com a dureza monetária sem afetar a importância da pureza doutrinária. Essa única forma chama-se criatividade.

E o que é criatividade?

Muitas vezes imagina-se, como o próprio nome sugere, que criatividade é o ato de criar algo novo. Mas a realidade é que em mais de 90% dos casos nada se cria de novo. Se analisarmos os diversos “atos criativos” que estão por aí, verificaremos que o seu “criador” simplesmente conseguiu enxergar um novo ângulo de algo que já existia. Esse é o seu mérito, e, diga-se de passagem, grande mérito. Um exemplo clássico é a propaganda do biscoito Tostines: “Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?” que nada mais é do que uma versão da famosa pergunta: “O que veio primeiro, o ovo ou a galinha?”.

Criatividade têm sido na maioria das vezes o ato de dar uma nova roupagem a algo que já existe, mudando completamente o foco e o campo de visão.

Uma das formas criativas que nossos irmãos espíritas estão utilizando para saírem da dureza monetária é dando uma nova roupagem ao tradicional Bingo. Estão inteligentemente – e criativamente – transformando um jogo de azar em jogo de sorte.

Como assim?

Característica do Bingo fora dos Centros Espíritas:

É um jogo onde poucos ganham e a maioria perde. Em outras palavras, é um jogo de azar.

Característica do Bingo patrocinado por Centros Espíritas:

É um jogo onde todos ganham ( sem uma única exceção ) pois, mesmo que a maioria não ganhe o prêmio objeto do bingo, ninguém deixará de ganhar o prêmio maior: que é o de poder contribuir com uma causa nobre em prol do bem do próximo. Em outras palavras, é um jogo de sorte.

O espírita precisa deixar de ser preconceituoso, pois, numa análise racional, não é a ferramenta utilizada que determina uma boa ou má ação. Por exemplo, analisemos o uso de uma faca por dois indivíduos, um assassino e um homem de bem. Para o assassino a faca pode ser o instrumento do homicídio, para o homem de bem a faca pode ser o instrumento para cortar o pão e alimentar os seus irmãos.

Descartes, no seu Discurso do Método, disse que “para chegarmos à verdade, é preciso, uma vez na vida, que nós nos desliguemos de tudo que aprendemos, e começar tudo de novo”. Procuremos despirmo-nos de nossos preconceitos em relação ao Bingo.

Façamos a nós uma pergunta e reflitamos sobre ela:

Se na divulgação do bingo no meio espírita sempre é dado ao participante o direito de saber a que se destina sua arrecadação ( ajudar uma creche, por exemplo ), se na realização do bingo a maior parte do dinheiro arrecadado vai para uma causa nobre, qual é a razão desse meu preconceito?

Se depois de tudo o que você ler neste artigo, concluir que o Bingo é um mal necessário, atenção: não utilize-o para angariar fundos. Pois, para nós espíritas, o fim nunca deve justificar o meio. Por outro lado, se após essa leitura você concluir que o Bingo, numa nova e criativa roupagem é um jogo de sorte e não jogo de azar, é porque conseguiu despir-se do seu preconceito e conscientizou-se que o Bingo – nessa nova roupagem – não é um mal, é sim um bem extremamente útil para ajudar a sairmos dessa dureza monetária sem ferirmos a pureza doutrinária.. Nesse caso utilize-o e seja o seu um dos Centros espíritas que, sem perder a pureza doutrinária, encontrará como sair da dureza monetária.

Costumo dizer que “ser espírita é a arte de sonhar com um mundo angelical, mas saber viver - sem ferir a ética espírita – num mundo de expiação e provas”.

Quando fizermos parte de um mundo angelical, ou mesmo de um mundo de regeneração, não precisaremos de Bingos para levar à frente nossos projetos no campo espiritual, mas por enquanto, ele é uma das maneiras mais simples e das mais produtivas. Se assim é, por que alguns espíritas são totalmente avessos ao uso do Bingo no meio espírita? Por uma só razão: sabem sonhar com um mundo angelical, o que é muito bom, mas não querem trabalhar com os instrumentos que esse mundo de expiação e provas nos proporciona.

Então estão errados os dirigentes que são contrários ao Bingo?

Não. Esse caso não é uma questão de certo e errado. Pergunto: pode o ser que escolheu abolir a carne de sua alimentação criticar quem tem a carne como seu prato predileto? Não, não pode criticar. A escolha de alimentar-se ou não com carne é uma questão pessoal. O vegetariano está procurando viver como viveria num mundo mais evoluído ( e ele tem esse direito ), o carnívoro ( que somos a maioria ) está vivendo de acordo com suas necessidades orgânicas atuais ( e também temos esse direito ). Estamos errados por assim agirmos? Não. Nenhum dos lados está cometendo erro.

Errado seria um criticar o outro, não respeitando o direito de opção.

Cabem aos espíritas respeitarem-se em relação ao direito de opção no uso ou não do Bingo para angariar fundos.

De certa forma, os favoráveis ao Bingo são os “carnívoros”, os contrários são os “vegetarianos”, ambos filhos de Deus.

No livro Jesus no Lar, Editora FEB, o espírito Neio Lúcio nos traz uma belíssima história sobre o problema mais difícil de resolver nos serviços referentes à procura da Luz Divina ( leia o capítulo 36 do citado do livro ). Em síntese a história nos passa a seguinte mensagem: “o mais intrincado problema do mundo, é o de cada homem cuidar dos próprios negócios, sem intrometer-se nas atividades alheias. Enquanto cogitamos de responsabilidades que competem aos outros, as nossas viverão esquecidas”.

Enfim, vamos nós “os carnívoros”, que adotamos o Bingo, fazer bem nossa parte sem criticar “os vegetarianos”. Ao mesmo tempo que “os vegetarianos”, que não adotam o Bingo, que façam bem sua parte, sem criticar “os carnívoros”.

Os Centros Espíritas geralmente não têm estrutura financeira para, entre outras coisas, fazerem-se mais presentes na comunidade. Passamos – sem querer – a ser omissos. Essa omissão dos espíritas, essa nossa falta de audácia ( vide pergunta 932 d’O Livro dos Espíritos ) propicia espaço para que muito gente ainda acredite em Adão e Eva, para que muita gente ainda veja Deus como um ser antropomorfo, para que muita gente ainda creia que Deus castiga, para que muita gente ainda valorize mais o culto exterior do que o culto interior, para que muita gente, como disse André Luiz, valorize mais a letra do evangelho do que o evangelho da letra.

Quando Herculano Pires disse “Se os espíritas soubessem o que é o Centro Espírita, quais são realmente a sua função e a sua significação, o Espiritismo seria hoje o mais importante movimento cultural e espiritual da terra”, deixou de forma implícita que estamos alongando nossa estrada. Estamos deixando de fazer obras de vulto para a divulgação do Espiritismo. E, em qualquer obra terrena, o dinheiro têm importância especial.

Sem ferir a ótica e a ética espíritas, saber utilizar com inteligência e criatividade dos recursos que nosso mundo oferece, despirmo-nos de preconceitos, sermos audaciosos, conscientizarmo-nos de nossa grande responsabilidade, são as formas de fazermos do Espiritismo o mais importante movimento cultural e espiritual da terra.

E para isto precisamos de dinheiro.

E qual é uma das formas mais simples de conseguí-lo? Utilizando do Bingo, o jogo da sorte.

Convenci-o?

Não.

Certamente, não.

Certa vez Galileu reuniu os principais professores da Universidade de Pizza à frente da torre homônima para provar, cientificamente, que dois objetos com pesos diferentes lançados de uma mesma altura e num mesmo momento, levariam o mesmo tempo para atingir o solo. Galileu conseguiu provar aos estupefatos professores que o peso do objeto não é preponderante. Isto é, que qualquer que fosse o peso de cada um dos objetos , eles chegariam juntos ao solo. Galileu provou tal fato. Sabe o que os professores continuaram lecionando? Continuaram por muitos anos ensinando aos seus alunos o contrário do que Galileu havia cientificamente provado.

Mas por que eles agiram assim de forma tão absurda?

Por que nós seres humanos somos resistentes às idéias novas. Veja o exemplo de Jesus quando veio à terra. Veja o exemplo de Kardec.

A Lei de Russel diz “a resistência à uma idéia nova aumenta na proporção do quadrado de sua importância”. E para quem têm uma forte opinião contrária – pré-concebida – em relação ao Bingo, esse artigo é uma idéia nova e sofrerá resistência. E, por não julgar-me dono da verdade, cabe-me respeitar as naturais resistências.

Escrevi esse artigo mais com o objetivo de desanuviar a mente daquele dirigente que hoje utiliza do Bingo, e não encontra apoio de muitos dos seus irmãos espíritas, do que para convencer a quem não aceita o Bingo no meio espírita. Cabe a nós humanos difundir novas idéias, mas sempre respeitar as opiniões contrárias.

(Alkíndar de Oliveira é consultor de empresas e autor do livro “Viver bem é simples, nós é que complicamos”, Editora Espírita Didier)