Artigos > Artigos Diversos > Obsessão
A obsessão segundo os gentios
Elsie Dubugras
O Evangelho segundo Mateus, Cap. X, vs. 5 a 8 conta que Jesus enviou seus apóstolos em missão, depois de lhes haver dado as seguintes instruções: "Não procureis os Gentios..." "Restituí a saúde aos doentes... expulsai os demônios...”
No Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. XXIV § 9 e 101 os Espíritos esclarecem que, se Jesus instruiu seus a para que não fossem ter com os gentios (os pagãos) não é que desdenhasse a sua conversão, mas é que os não-gentios (os judeus) já haviam sido preparados e estavam prontos para aceitar a Boa Nova; explicaram mais que os outros, "os incrédulos sistemáticos, os zombadores obstinados, os adversários interessados" ainda não o estavam, e a semente cairia, portanto, em solo pedregoso. Acrescentam: "CHEGAR-LHES A VEZ QUANDO ESTIVEREM DOMINADOS PELA OPINIÃO GERAL E OUVIREM A MESMA COUSA INCESSANTEMENTE REPETIDA AO SEU DERREDOR. AÍ JULGARÃO QUE ACEITAM VOLUNTARIAMENTE, POR IMPULSO PRÓPRIO, A IDÉIA, E NÃO POP PRESSÃO DE OUTREM..." Depois, há idéias que são como as sementes, Não podem germinar fora da estação apropriada, nem em terreno que não tenha sido de antemão preparado...
Parece-nos agora que o terreno dos "gentios" já deve estar sendo arroteado, pois eles estão vendo e ouvindo mesma cousa, "incessantemente repetida" por todos os meios de comunicação pelo rádio, pela TV, pela imprensa, pelo livro e por testemunho pessoal. A curiosidade do grande público nos Estados Unidos e na Europa, está tão voltada, por exemplo, ao que, por falta de maiores conhecimentos, chamam de Ocultismo, Ciências Sobrenaturais, ESP, etc., que até o afamado semanário TIME, sempre atualizado, tem publicado artigos sobre esses temas. Na edição de 19 de junho p. p., o setor dedicado à "Religião" publica um ensaio ilustrado com fotos a cores, do que o articulista constatou nos EUA nesse campo - reuniões comuns ou bizarras, em casas de família ou outros locais, o interesse pela bola-de-cristal, pela reencarnação, o satanismo as projeções astrais, a magia, a profecia, a clarividência e o Espiritualismo. Diz o TIME, também, que há grande interesse pelos livros que tratam desses assuntos e que o Centro de Metafísica de São Francisco tem uma venda mensal de cerca de Cr$ 150.000,00 dando, também, cursos sobre a reencarnação, a numerologia, a cabala, etc. (Será que ninguém lembrou de mandar 'aquele Centro alguns bem traduzidos livros básicos de Kardec?)
O articulista conta, também, que, sentindo esse interesse, uma conhecida Cia. de Navegação Aérea patrocinou um "tour" pela Grã-Bretanha para que os componentes do grupo pudessem assistir a sessões espiritualistas, presenciar curas espirituais e outros acontecimentos congêneres. A escolha daquele país foi ocasionada pelo grande ressurgimento do Espiritualismo. Ele acrescenta que há, paralelamente, um ressurgimento de magia negra na Inglaterra, a ponto de as Igrejas Católica e Anglicana terem recomendado às suas dioceses que nomeiem exorcistas oficiais para expulsarem os "demônios" - em outras palavras, praticarem a desobsessão! O mesmo está acontecendo no Continente europeu.
No subtítulo intitulado "O Espiritualismo o articulista explica que seus adeptos são geralmente classificados como "médiuns", isto é, "pessoas capazes de fazer contato com o outro lado, mas que, em verdade, fazem muito mais do que isto, gastando tanto tempo nas curas espirituais e nos conselhos aos necessitados como nas sessões propriamente ditas." A sua descrição das sessões, porém, mais nos lembra uma central telefônica do que uma reunião espírita, pois o que parece predominar é o interesse de fazer ligações diretas com os espíritos amigos e parentes dos assistentes! E a sua opinião sobre o Espiritualismo é que "Nenhum céptico jamais provou que ele é válido, mas nesses acontecimentos permanecem alguns incidentes que desafiam as leis da probabilidade ou da mera coincidência". Ainda bem...
As fotos são bizarras demais para serem descritas - é preciso vê-Ias para crer. A última, no entanto, é bastante interessante. Intitula-se "O Povo de Jesus praticando o exorcismo em grupo para curar uma possessa." Mostra um grupo de jovens, profundamente concentrados, dando um passe numa mocinha sentada no meio do círculo. E o articulista termina dizendo: "ELA CUROU-SE". Kardec não teria concordado, com o nosso amigo, pois, no livro "A Obsessão" ele conta o caso de uma obsediada cuja família havia tentado de tudo na esperança de curá-la. A medicina foi inútil, o exorcismo não deu certo, as visitas aos santuários tão pouco, e NEM, também, OS PASSES, pois, apesar dos passes terem sido aplicados por um espírita, não foi possível evocar o obsessor por falta de médiuns (pág. 317) .
Falando de obsessão, não poderíamos deixar de comentar um livro que é um autentico "best-seller" americano "THE EXORCIST" (O exorcista). É um romance, más como o autor, para escrever a sua obra, consultou uma autoridade da renomada "Sociedade de Jesus", em Nova York, o Reverendo Thomas B. Bermingham, o trabalho adquiriu um cunho de autenticidade no que diz respeito ao que a Igreja Católica pensa sobre a obsessão e a desobsessão são por meio do exorcismo. Achamos, pois, que os Espíritas também se interessariam em saber, ainda que de forma ligeira, como alguns não-Espíritas encaram esse flagelo, os meios que usam para comprovar a sua autenticidade, o que precisam fazer para iniciar os trabalhos de desobsessão e as possíveis conseqüências (segundo eles) para os pobres exorcistas, conseqüências estas que eles parecem conhecer, aceitar, mas que não podem deixar de temer!
È uma obra que prende a atenção pelo apavorante desenrolar de uma trágica obsessão. Trata-se de uma menina americana de onze anos de idade, filha única de um casal separado que, para passar o tempo, brinca com uma prancheta , (Ouija Board), dialogando, por esse meio, com um companheiro invisível que ela chama de Capitão Harvey. Este é o prelúdio. A primeira fase começa com os "raps" (pancadas). As roupas saem dos armários aparecendo em outros locais. O quarto onde a garotinha dorme torna-se gélido. Os móveis mudam de lugar, móveis pesados demais para serem arrastados por uma criança. Apesar dos fenômenos tornarem-se cada vez mais insistentes, estranhos e alarmantes, ninguém, por incrível que pareça, desconfia do que pode estar acontecendo. Essa primeira fase termina com a misteriosa morte de um dos amigos da mãe, que é encontrado sem vida, na rua, logo abaixo da janela do quarto onde a garota dorme. Deduz-se que ele haja, caído do andar superior, mas, de maneira que ninguém pode explicar como. Entra a polícia.
Na segunda fase, o terror se intensifica, pois a menina começa a mostrar fortes sinais de desequilíbrio psíquico. Conversa, também, em línguas estranhas, comete atos terríveis, fala monstruosidades, mostra uma força descomunal, muda de personalidade - não uma mas muitas, cada qual pior do que a precedente. Lê os pensamentos dos que a vistam, demonstrando, enfim, os sintomas de um gravíssimo caso de obsessão. Mas ninguém pensa nisso. A mãe, como boa e moderna americana, chama um médico, um psiquiatra, etc. A garota é internada numa clínica psiquiátrica das melhores e submetida a todos os testes possíveis. - Mas os testes são negativos e os médicos não atinam com a sua doença.
Começa a terceira fase. Ela volta para casa, onde as coisas pioram de minuto a minuto. Alguém tem, então, a brilhante idéia de chamar um padre. O que atendeu o chamado era, não só um sacerdote jesuíta, mas um psiquiatra que conhecia, também, bastante sobre a obsessão e a possessão. Levaram-no para ver a menina e ele alarmou-se pois, além de todos os fenômenos já descritos, ela estava cadavérica, exalava um cheiro nauseabundo, vomitava, etc., e em sua pele apareceu um pedido de socorro, que não podia ter sido feito por ela mesma, pois os médicos haviam amarrado seus bracinhos. Em vista de tudo isto, o jesuíta desconfiou que estava frente a frente com um caso de obsessão mas, em primeiro lugar, era obrigado a eliminar a possibilidade de desequilíbrio mental. Pediu para ver os testes feitos na clínica psiquiátrica e os estudou. Levou um gravador ao quarto da menina e gravou o que ela dizia. Fez testes lingüísticos para saber se as línguas estranhas que ela falava podiam ter partido de seu inconsciente. Foi aí que alguém, ao passar uma das fitas de trás para a frente, descobriu que uma dessas línguas nada mais era que o inglês também falado de trás para frente! (Será que alguém já experimentou pronunciar uma frase de trás para a frente? E a garota que as falava, rápida e correntemente, só tinha onze anos de idade).
Pensar-se-ia que, em vista de todas essas anormalidades, sugerindo claramente um caso de obsessão, o jesuíta não teria outra alternativa se não a de aplicar o remédio que conhecia o exorcismo. Mas, segundo o livro, não é fácil fazer um exorcismo. Para tanto deve-se, primeiramente, conseguir a licença dos superiores, e, para obter essa licença é preciso convencê-los de que se trata mesmo de um caso de obsessão o que é um tanto complicado. E o tempo passa, a menina piorando de hora em hora. É uma agonia. Enfim os superiores se convencem que se trata mesmo de um caso de obsessão mas, em vez de permitirem que o sacerdote que acompanhou o caso faça o exorcismo, mandam chamar outro, que tinha estado em lugar distante. Para encurtar o caso, ambos vão fazer o exorcismo, e para encurtar ainda mais, ambos morrem... Aquele que veio de longe aparece morto ao lado da cama da menina, e o que acompanhou o caso aparece morto na rua, no mesmo local e da mesma forma como morreu o amigo da mãe - caindo janela abaixo do quarto onde a menina dormia. A pequena curou-se. Imagine-se só se isto acontecesse cada vez que nós, Espíritas, tratamos dos obsediados. Já não haveria mais Espíritas no Brasil!
O sucesso desse livro e o artigo do TIME mostram o interesse que os nossos irmãos de outras terras têm pelos assuntos de fundo espiritual. Mas nos mostram, também, que pouco conhecem daquilo que nos foi legado por Kardec - o roteiro seguro do Espiritismo que, através da reforma íntima e do conhecimento das verdades espirituais, nos conduzem à paz e à duradoura felicidade. Essa nossa opinião acaba de ser confirmada por uma carta recebida de uma irmã residente nos EUA. Diz ela, entre outras coisas, "Estivemos novamente na cidade de... e verificamos que há uma tremenda confusão por parte dos "Espíritas" daqui com relação às atividades brasileiras... O grande problema é que os "Espíritas" pensam que eles são os únicos que tomam o Espiritismo como Religião, Ciência e Filosofia, SEM SABEREM NADA DE KARDEC e que o resto do mundo só trata do fenômeno mediúnico! Mas é exatamente o contrário. Os médiuns e os chamados Espíritas só conhecem o fenômeno mediúnico SEM REFORMA ÍNTIMA, e, então, você pode imaginar que tipo de médiuns e o calibre das comunicações."
Estamos, pois, convencidos que aqueles que já receberam a luz do Espiritismo têm por obrigação colocá-la sobre um candeeiro e não escondê-la debaixo de um alqueire. Isto quer dizer - FAÇAMOS CONHECIDAS AOS NOSSOS IRMÃOS DE OUTRAS TERRAS AS OBRAS BÁSICAS DE KARDEC, EM SUAS PRÓPRIAS LÍNGUAS. Isto exigirá um esforço coletivo, um esforço hercúleo de nossa parte, mas não devemos jamais esquecer que fora da caridade não há salvação e a caridade não consiste só em alimentar, vestir e cuidar dos corpos. É muito mais importante dar conhecimentos aos que têm sede e fome de saber.
Revista Internacional de Espiritismo – Outubro de 1972