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Espiritismo e Cristianismo
Vladimir Aras

Recentemente, tive acesso, pelo jornalismo espírita, a uma interessante crítica sobre a linha de atuação da CEPA - Confederação Espírita Pan-americana, organismo que, a pretexto de kardequizar o movimento espírita, vem sistematicamente rejeitando a ascendência espiritual de Jesus sobre a Codificação.

Não que eu seja dogmático. Ao contrário, admiro intensamente a feição científica do Espiritismo, não deixando de dar-lhe a atenção devida. O que é certo é que Kardec, na introdução de O Livro dos Espíritos, item XVII, na tradução de Salvador Gentile, diz expressamente que a ciência espírita compreende duas partes: uma experimental, sobre as manifestações em geral, outra filosófica, sobre as manifestações inteligentes. Aquele que não observou senão a primeira, está na posição daquele que não conhece a física senão por experiências recreativas, sem ter penetrado no fundo da ciência. A verdadeira Doutrina Espírita está no ensinamento dado pelos Espíritos (...).

Ora, então temos a Ciência Espírita latu sensu, que se divide em ciência experimental (estudo das manifestações em geral) e em filosofia (estudo das manifestações inteligentes). Esta última, a filosofia, segundo o próprio mestre lionês, é que constitui a verdadeira Doutrina Espírita. Da aplicação dessa filosofia à vida cotidiana é que surge a religião, seu terceiro aspecto.

Na mesma obra, Kardec assevera que O Espiritismo se apresenta sob três aspectos diferentes: o fato das manifestações, os princípios de filosofia e de moral que dela decorrem e a aplicação desses princípios. Daí três classes, ou antes, três graus entre os adeptos: 1) os que crêem nas manifestações e se limitam em constatá-las; é para eles uma ciência experimental; 2) os que lhe compreendem as conseqüências morais; 3) os que praticam ou se esforçam por praticar essa moral.

Ora, aí se vê que os adeptos do pensamento da CEPA se enquadram, em sua maioria, na primeira das categorias citadas pelo Codificador. Vêem o Espiritismo como ciência experimental.

Continua Allan Kardec: Que importam, aliás, algumas dissidências que estão mais na forma que no fundo! Observai que os princípios fundamentais são os mesmos por toda parte e devem vos unir num pensamento comum: o amor de Deus e a prática do bem.

A moral espírita, qual é? É a própria moral do Cristo! Kardec e os Espíritos da Codificação nenhuma moral nova criaram. Justo assim que se tenha Jesus como figura central da Doutrina, tendo Kardec e os Espíritos da Codificação ao lado. O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo I , item 7, expressa que a Doutrina Espírita É, pois, obra do Cristo, que o preside, como igualmente anunciou, a regeneração que se opera, e prepara o reino de Deus sobre a Terra. Se a CEPA e seus ilustres adeptos pretendem kardequizar o movimento espiritista brasileiro, precisam antes apreciar mais detidamente a obra do Codificador, a fim de assegurar sua plena compreensão no que respeita à vinculação entre Espiritismo e Cristianismo, e portanto entre ciência e religião.

No capítulo XVII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, ao tratar dos bons espíritas, Kardec afirma com todas as letras:

O Espiritismo bem compreendido, mas sobretudo bem sentido, conduz forçosamente aos resultados acima, que caracterizam o verdadeiro espírita como o verdadeiro cristão, que são a mesma coisa. O Espiritismo não criou nenhuma moral nova; facilita aos homens a inteligência e a prática da moral do Cristo, dando uma fé sólida e esclarecida àqueles que duvidam ou vacilam.

A alegativa de que a vinculação ao Cristo apequena a Doutrina Espírita não resiste a uma análise mais cuidadosa. Kardec acentua na introdução de O Evangelho... (item I) que foram reunidos nessa obra os artigos que podem constituir, propriamente falando, um código de moral universal, sem distinção de culto e portanto válido para toda a Humanidade. Isso por uma simples razão: a moral do Cristo não é particular a um povo, a uma época, a um lugar, ou a uma religião. Jesus nos trouxe a moral universal, que já nos havia sido apresentada antes por Sócrates e Platão, por Krishna e Sidarta Gautama, por Maomé e depois por Gandhi e Sai Baba e muitos outros. Todos esses seres vieram à Terra a serviço do Amor. A nomenclatura sob a qual vieram ou a forma como se apresentaram pouco importa. Vale a essência do ensinamento, que é a mesma.

É inevitável admitir, assim, que o Espiritismo adquire, de fato, conotação de religião, de religião universal, como se pode depreender do seguinte trecho de O Evangelho..., in verbis: Esta obra é para uso de todos; cada um nela pode achar os meios de conformar sua conduta à moral do Cristo. (...) A lei evangélica, ensinada a todas as nações pelos próprios Espíritos, não será mais letra morta, porque cada um a compreenderá, e será incessantemente solicitado a praticá-la pelos conselhos de seus guias espirituais. As instruções dos Espíritos são verdadeiramente as vozes do céu que vêm esclarecer os homens e convidá-los à prática do Evangelho. Que é isso senão uma religião, cristã e universal?

Ademais, na definição de Aurélio Buarque de Holanda, religião (oitava acepção) é qualquer filiação a um sistema específico de pensamento ou crença que envolve uma posição filosófica, ética, metafísica etc., conceito que se adapta perfeitamente ao Espiritismo que é religião sem templos, sem ritos, sem dogmas, conforme a definiu o Codificador.

Para arrematar, lembremos mensagem do Espírito de Verdade, constante do capítulo VI, item 5, de O Evangelho...: Espíritas! amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo. Todas as verdades se encontram no Cristianismo; os erros que nele se enraizaram são de origem humana (...). Assim, creio que kardequizar o Espiritismo é preservar sua inteireza, tal como Kardec o codificou: como ciência, como filosofia e como religião, que é a filosofia posta em prática.

Devemos, sim, é assegurar a pureza doutrinária, para que não se enraízem na doutrina hábitos e conceitos católico-romanos ou esotéricos, como tem ocorrido no país. Porque o Espiritismo não é apenas mais uma religião cristã; o Espiritismo é a religião cristã por excelência; é o Cristianismo Redivivo, para difusão universal, o que não impede seu desenvolvimento nas frentes filosófica e científica, como pretendem os irmãos da CEPA. O que devemos evitar são os cismas, as cisões e dissensões radicais. Há espaço para todos no seio desta maravilhosa Doutrina, sempre com Kardec e com Jesus.