Artigos > Grupo Espírita Bezerra de Menezes


O homossexualismo e os falsos profetas
Vanda Simões

A questão do homossexualismo acendeu na imprensa espírita, nos últimos meses, polêmica e áspera discussão. De um lado estão os que defendem a normalidade desse comportamento e de outro os que o vêem como uma anomalia. A grosso modo, e a olhos vesgos, parece um debate entre progressistas (os primeiros) e os conservadores arcaicos (os últimos). Entretanto, aprofundando a análise, a discussão é muito mais relevante e envolve questões que passam, irremediavelmente, pelos mecanismos moralizadores estabelecidos para o equilíbrio das criaturas. Sim, porque eles existem e são necessários, e estão acima das opiniões de quem, com visão turva, teima em encarar fatos degradantes como normais. A nosso ver, o problema não é se o homossexual pode ou não trabalhar na casa espírita. O cerne da questão é: o homossexualismo é uma normalidade?

Existem apenas duas possibilidades de resposta: Sim ou Não. Se admitirmos a primeira hipótese, simplificando o problema como questão de foro íntimo ou de opção de cada criatura, estaremos forçosamente concordando com as conquistas pleiteadas pelos homossexuais, como mudança de sexo, casamento entre si, adoção de filhos e todas as outras situações vivenciadas por casais normais. Não há como ser diferente.

Na segunda hipótese, veríamos o homossexual como indivíduo com um desvio de comportamento, uma vez que contraria a lei natural: somos homens ou mulheres. Não existe um terceiro sexo. O homossexual, por inúmeras razões que não cabe aqui discorrer, tenta encontrar-se sendo aquilo que na realidade não é, daí seus conflitos. Certamente o problema é multifatorial e carece de avaliação mais cuidadosa, mas não deixa de ser problema.

Atualmente, o mundo passa por grave crise moral onde verdadeiras aberrações são encaradas com cândida, caridosa e irresponsável anuência. Essas anomalias são tidas como normais, como sinal de progresso e outras explicações simplistas. Ora, mas progresso é aprimoramento e não deformação, disse Herculano Pires. No meio espírita, o posicionamento em relação às anormalidades vem tomando proporções preocupantes. No caso do homossexualismo, confunde-se a necessidade (e mesmo o dever) de compreender e ajudar o irmão com a dificuldade, com conivência e aceitação de uma conduta, tida por todas as religiões cristãs como anormal, posto que subverte a ordem natural das coisas.

O jornal Opinião E., em sua edição de abril/96, trouxe um texto de Eugênio Sue, onde ele conta uma burlesca história em que um homossexual é visto aos beijos com um homem, por uma companheira do centro espírita em que trabalhava. Tenta mostrar que o sujeito em questão era de uma conduta impecável e um ser de inigualável nobreza. Mas eis que é visto em atitude reprovável (para o autor, talvez não) e é impiedosamente rechaçado pelos dirigentes, dando a entender que assim agiriam os conservadores medíocres.

O desfecho da história é teatral, com o dito homossexual desafiando o centro espírita inteiro. Durante uma reunião, o sujeito subiu até o palco onde o orador proferia a palestra, e em represália por ter sido tratado com descaridosa indiferença, saiu às gargalhadas, como se quisesse dizer que aquelas pessoas falavam no Cristo, mas não O seguiam. O centro espírita que o articulista imaginou, só existe mesmo na cabeça dele. O homossexual, depois de exposto o seu problema, foi expulso impiedosamente, procedimento absurdo e irreal em qualquer casa espírita.

A inacreditável história não deveria estar nas páginas de um jornal espírita. Mas circulou como uma pretensa defesa do homossexualismo como "opção", e como ferrenha crítica aos que defendem o outro lado da questão.

O mesmo jornal, em edição de maio/96, apresentou o editorial "Último Tabu", que deixa qualquer um perplexo. O texto trata por medíocres as pessoas que vêem o problema da homossexualidade como uma anormalidade. Os editorialistas apelam para o sentimentalismo, dizendo que os críticos confundem o ser com sua opção de vida (?) e em nome de uma moral confusa o condenam ao ostracismo. Colocam a questão toda como um mero preconceito de uma sociedade de rotinas castradoras, mesquinhas e medíocre.

Na boca de escritores materialistas estas palavras estariam perfeitas, mas saindo da verve de pessoas que dizem professar o Espiritismo, uma doutrina que oferece explicações lógicas para todos os males (inclusive o homossexualismo), soa de forma estranha e inexplicável. Atitude dos que, com o intuito de agradar a gregos e troianos, buscam as mais estapafúrdias justificativas para a defesa daquilo que é indefensável perante o bom senso.

Hoje, sob a aura dessa aparente modernidade, até as leis que foram idealizadas para disciplinar a conduta na sociedade, correm o risco de ser moldadas de forma a atender os anseios animalescos do dito homem moderno. Nos últimos dias, o país inteiro assistiu assustado, os juízes do Superior Tribunal Federal inocentarem um homem de 24 anos, que cometeu o crime de estupro em uma criança de 12, sob a alegação de que nos nossos dias, não há crianças, mas moças de doze anos.

Hoje, encara-se o bizarro com uma naturalidade impressionante. Abriu-se um grave precedente na lei que, teoricamente, deveria agir para proteger esses pequenos seres, agora, legalmente entregues à permissividade e promiscuidade do mundo.

O fato, embora tenha sido considerado legal, é, segundo o bom senso, de grave imoralidade. Uma conduta reprovável, porém compreensível no pensamento deturpado da atualidade. O que não se compreende é que esse mesmo espírito de incoerência tenha se infiltrado nas hostes espíritas, onde, teoricamente, deveria reinar a razão. Tanto a história de Eugênio Sue, quanto o editorial do Opinião E., foram animados pelo mesmo Espírito, que faz os articulistas passarem-se por liberais compreensivos, enquanto os ditos conservadores são colocados como medíocres que desrespeitam a opção feita pelo companheiro, condenando-o ao isolamento. Toda a sutileza do raciocínio gira em torno de suposições. Nada se fundamenta em fatos. O Espírito é um sofista, que procura manejar as palavras de modo a fazer o erro e a mentira valerem tanto quanto o acerto e a verdade.

Em jornalismo sério e comprometido com a verdade não se deve emitir opiniões sobre coisas, idéias e valores sem buscar seus verdadeiros conceitos. Nós, espíritas, não temos o direito de defender publicamente a normalidade de coisas tão graves quanto o homossexualismo. É pior ainda, quando as opiniões fundamentam-se em suposições.

Há um espírito de mentira em nosso meio. Sob a alegação da justiça e do liberalismo ele tolera as mais torpes deformações do caráter. É uma mentalidade que folga e compactua com o mal. Usa da filosofia para disfarçar-se com capa do Bem. O apóstolo Paulo já nos advertia sobre isso em Romanos 1:18-32. Os valores mundanos são exacerbados em detrimento dos interesses divinos. Tudo em nome da caridade e da modernidade. Lamentavelmente!

Texto publicado no A Voz do Espírito, edição 79, 1996