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Os enganos do Sr. Roustaing II
Josué de Freitas

Partes: 1, 2, 3

No movimento espírita, não são poucas as teorias esdrúxulas que encontraram espaço para se desenvolver e contaminar a cabeça das pessoas menos esclarecidas.

Quando estudamos a história recente do movimento, notamos que desde seu início houve uma espécie de preparo de terreno para que essas doutrinas estranhas pudessem se instalar. É evidente que não se pode falar da gênese do movimento sem falarmos da Federação Espírita Brasileira - FEB. Afinal, bem ou mal, foi ela quem ao longo de todos esses anos assumiu o papel de Comitê Central (órgão que, segundo Allan Kardec, deveria gerenciar o movimento espírita) e trouxe as coisas até o ponto onde estamos.

A primeira medida tomada pelos Espíritos envolvidos nesse processo genésico do sistema, foi criar um único ponto diretor: A FEB. A segunda, foi dar origem a uma política capaz de sufocar qualquer possibilidade de análise ou crítica, por parte de sociedades espíritas ou pessoas. A isto deram o nome de "unificação". A terceira providência foi encontrar apoio para suas idéias, junto aos líderes e médiuns de destaque. A história mostra como a FEB valendo-se das lendas que criou em torno de si e usando o nome do Cristo conseguiu esse apoio.

O movimento espírita é um sistema despido de racionalidade. As pessoas que se tornaram trabalhadores e dirigentes de centros espíritas não foram educadas para raciocinarem em termos kardequianos. Um ambiente psicológico com essas características seria favorável para absorver qualquer tese que viesse revestida de aparente lógica ou santidade. Alguns intelectuais ligados à Federação Espírita Brasileira foram responsáveis pela introdução das teorias antidoutrinárias de Jean Baptiste Roustaing no sistema. Há reflexos dessas idéias no trabalho de médiuns de expressão e mesmo nos discursos de oradores e líderes espíritas.

Ao contrário do que muitos pensam, o problema "Roustaing" pouco tem a ver com a edição de seus livros pela FEB. Este é o menor dos males. O que sempre escapou aos que se opuseram à Casa Mater do Espiritismo, foi o fato de que havia por trás dos livros uma política doutrinária com estreita ligação com o catolicismo e que essa mentalidade estava presente em quase todo o movimento espírita.

Não se deve assumir uma posição contra a FEB por causa da edição dos livros de Roustaing. Não se pode proibir alguém de editar essa ou aquela obra. O que se pode fazer é criticá-las publicamente, demonstrando suas incoerências. Mas é preciso cobrar da FEB que assuma a posição de Comitê Central ou explique as razões pelas quais não quer fazê-lo.

A política doutrinária no movimento precisa ser modificada com urgência. Qualquer observador anônimo que fizer uma 'viagem espírita' ficará assustado com o grau de fantasias e ilusões a que estão entregues os médiuns, oradores e trabalhadores espíritas. O sistema está comprometido e a FEB, por nos ter gerenciado todos esses anos, tem responsabilidade nisso. Cabe aos espíritas sérios trabalharem para modificar esta situação.

Os livros de Roustaing são uma mistura de alguns conceitos autênticos com outros que podem ser considerados verdadeiras heresias. Os erros doutrinários dos Espíritos ligados a essa obra são originários da confusão em torno da personalidade de Jesus e a natureza do seu corpo. Para iniciarmos essa coluna, partiremos de algumas reflexões em torno desses conceitos. Abordaremos primeiro a questão da personalidade de Jesus.

Na interpretação que a Igreja Católica dá à personalidade do Mestre há um erro capital: o de que Ele seria a encarnação da própria Divindade. Idéia semelhante veio parar no Espiritismo com a ajuda dos adeptos de Roustaing. Para eles, Jesus seria um Espírito sem pecados, que teria evoluído em linha reta. A pureza do seu espírito seria de tal magnitude, que sua encarnação na Terra teria sido fictícia. Colocações no mínimo estranhas, mas apoiadas no jogo das palavras e nas muitas interpretações que a elas se pode dar, quando não estão bem traduzidas.

Ao ler os Evangelhos, um observador atento percebe freqüentemente que Jesus falava como se fosse uma Divindade e mudava de personalidade, ora se comportando como um homem e ora como um deus. Os problemas em torno de sua individualidade nasceram deste fato.

Sabe-se que, em termos de revelação divina, sempre existiram a doutrina pública e a oculta. O conhecimento superficial é o público, já o profundo das escolas denominadas 'iniciáticas'. A interpretação que a Igreja Católica deu à personalidade de Jesus foi resultado da luta entre os pensadores dessas alas. Predominou o conhecimento superficial. O Espiritismo foi um esforço da Espiritualidade para popularizar o conhecimento oculto.

Allan Kardec, como grande pensador, dedicou-se também ao estudo da personalidade de Jesus, em Obras Póstumas, no tópico "Estudo sobre a natureza do Cristo, item 5. Mas não chegou a deduções satisfatórias. Sem saber o que aconteceria mais tarde com a Doutrina Espírita, o Codificador conclui que a questão não teria importância maior e deixou-a de lado.

Entre os especialistas que estudam os Evangelhos, alguns consideram que por trás da vida pública do Cristo, havia todo um plano para que sua missão pudesse se desenvolver a contento. Os espíritas, de um modo geral e por comodismo, preferem acreditar que Jesus era apenas um simples carpinteiro. Os indícios, porém, apontam na direção oposta: ele seria um Mestre da Espiritualidade, missionário que teria descido ao orbe para trazer o código moral do Evangelho e detonar a fase que conduziria a humanidade a um estado superior de vida: a regeneração.

Existem coisas que não foram bem explicadas na vida do Mestre. A presença dos Reis Magos logo após seu nascimento, por exemplo, seria uma delas. Quem seriam essas figuras? Os textos antigos falavam que teriam vindo do oriente, onde as escolas iniciáticas eram comuns. Como teriam sabido do nascimento de Jesus? Será que teriam vindo fazer-lhe simples visita? Onde teria estado Jesus no período da mocidade?

Nos discursos do Mestre, percebe-se que tinha um profundo conhecimento das Escrituras antigas. Onde as teria estudado? Com quem esteve durante esses anos de desaparecimento? E por que motivo entre os apóstolos, havia a presença de João Evangelista, um suposto membro da escola filosófica de Alexandria? Seria esse o motivo do seu Evangelho apresentar características radicalmente diferentes das narrativas dos outros evangelistas? E mais tarde, qual seria a razão para vir parar no Cristianismo nascente a pessoa de Paulo, um membro de outra escola filosófica existente em Tarso? E a razão da simpatia de alguns fariseus por Jesus, tais como Nicodemos, José de Arimatéia e outros? De fato, Jesus era mesmo um Enviado, preparado espiritualmente para desempenhar a tarefa da redenção dos homens, mas como não veio derrogar a Lei, necessitou para cumprir a missão de instruções à semelhança dos seres humanos comuns.

As reflexões que estamos encetando neste ensaio têm como finalidade apresentar uma teoria lógica sobre a personalidade de Jesus e demonstrar que os enganos do Sr. Roustaing são provenientes justamente da interpretação superficial do conhecimento, que foi dada por certos mestres da Igreja Católica. Uma vez esclarecidas as questões da personalidade do Cristo e da natureza do seu corpo, o edifício das teorias roustainguistas ruirá. Só as aceitarão os Espíritos que, por condição evolutiva e limites de desenvolvimento, preferirem se alimentar das ilusões provocadas certamente por Espíritos pouco adiantados. (Continua no próximo texto).