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J. Herculano Pires - O Apóstolo de Kardec
Pedro Camilo

O Movimento Espírita é por demais lacunoso no registro de suas memórias. E se assim o é em relação a fatos e feitos, mais pronunciado ainda é o esquecimento a que legamos os grandes nomes da divulgação doutrinária, aqueles que fizeram diferença e cujos ensinamentos repercutem nos nossos dias e repercutirão num futuro insondável.

Embora seja assim na maioria de nós, sempre surpreenderemos as raríssimas exceções, sem o que não se poderia confirmar a regra, que rompem com a inércia consentida das novas gerações e resgata, em estudos biográficos, a vida desses nomes respeitados.

Um deles, sem sombra de dúvidas, é Jorge Rizzini. Sempre dedicado ao estudo e à averiguação, suas obras vêm retratando inúmeros personagens da história global e da espírita em particular, como “Escritores e Fantasmas”, tornada clássica entre nós, e “Em Busca da Verdade Perdida no Tempo”, em cujas páginas surpreendemos detalhes da vida de Kardec, das Irmãs Fox, de Yvonne A. Pereira e de outros denodados vultos.

Recentemente, as letras espíritas conheceram mais uma importante obra sua, “J. Herculano Pires – O Apóstolo de Kardec”, registro biográfico do eminente jornalista e filósofo espírita, cuja existência caracterizou-se pelo zelo doutrinário, ideal que o levou, não poucas vezes, a acalorados debates e intermináveis polêmicas. Falemos brevemente da obra.

Em seu estudo, que foi feito com esmero à custa de trinta anos de pesquisa, Rizzini faz um apanhado desde a infância até à desencarnação do apóstolo, revelando curiosas minúcias de sua vida. Fala de como ele iniciou a carreira de jornalista, no interior de São Paulo, bem como dos movimentos literários em que tomou parte ativa. Sua liderança era natural, sem ser imposta, e sua capacidade de apreender a vida era, desde a juventude, bem ampla.

No início de sua vida doutrinária, suas idéias e explanações eram misturadas com as concepções da Teosofia, crença que até então tinha professado, tendo sido advertido a tempo de rever suas posições e formar uma sólida base de conhecimentos espíritas.

Já acostumado à arte de escrever (Herculano dizia-se “grafomaníaco”), foi Cairbar Schutel quem o “descobriu” bom escritor, por assim dizer, facilitando a publicação de um seu artigo no Jornal O Clarim. No entanto, o Bandeirante do Espiritismo não chegou a ver o nome de Herculano estampado no jornal de Matão, por ter desencarnado. Foi, como afirmaria Jorge Rizzini, um dos últimos feitos significativos do eminente comunicador.

Daí para frente foram várias as suas realizações. Seus programas radiofônicos, seus debates com o Padre Quevedo, suas homéricas polêmicas, sua crítica aguda e seu humor fino atraíram muita repulsa, mas também admiração. E se falando ele já se revelava grande, escrevendo ele mais e mais se agigantou, deixando mais de oitenta obras escritas, onde a filosofia, especialmente a Filosofia Espírita ganha asas e ascende às alturas em vôos sublimes.

Funcionário do Banco do Brasil, Herculano debruçou-se sobre o estudo da Filosofia, graduando-se com a tese “O Ser e a Serenidade”. Seu único interesse era mais habilitar-se para poder dissertar sobre a Filosofia Espírita, o que justifica o grande número de livros dedicados a esse ideal.

“J. Herculano Pires – O Apóstolo de Kardec”, além de preencher a lacuna de nossa memória insossa, é, sem sombra de dúvidas, um monumento vivo, que homenageando Herculano Pires, o mesmo Alexandre Herculano que se dedicou às letras portuguesas no século XIX, na figura dele louva a todos os que, com sinceridade e destemor, adentra o melindroso campo da divulgação espírita, não medindo distância na difusão e vivência de seus postulados.

pedcamilo@yahoo.com.br