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Aos olhos do Senhor
Richard Simonetti
“Pois que ele será grande aos olhos do Senhor; não beberá vinho nem bebida alguma inebriante.” — Anjo Gabriel.
Lucas, 1:15.
Em todas as épocas, sempre que se interessa pela vida religiosa, o homem tem sido inspirado a evitar paixões e vícios humanos, simbolizados no vinho do prazer.
Esse empenho, considerado fanatismo intransigente pela multidão, é pura e simplesmente uma imposição de serviço, da qual não podem furtar-se aqueles que desejam servir.
As Forças do Bem pedem instrumentos equilibrados e puros, para que possam manifestar-se em toda a sua plenitude na Terra, derramando bênçãos de conforto e progresso para a civilização.
Todavia, aqueles que procuram os templos raramente se sentem dispostos ao esforço necessário para eliminar hábitos e tendências, cuja satisfação consideram indispensável ao seu bem-estar.
Daí sua preferência pelo culto exterior, renunciando a qualquer atividade religiosa que implique em responsabilidade individual. Desejam o Céu, mas não pretendem tirar os pés do chão; Anulam, assim, qualquer possibilidade de sintonia com os amigos invisíveis e reclamam que foram abandonados quando seus excessos geram a perturbação.
Pelas mesmas razões, surgem no seio de todas as religiões tarefeiros dotados de grandes possibilidades espirituais, mas que fracassam desastradamente. Preparados para marchar na vanguarda, esquecem a exemplificação e acabam estacionados nas trevas da retaguarda.
Para que tão lamentáveis enganos sejam evitados, encontramos nos postulados da Doutrina dos Espíritos as mais severas advertências, dirigidas principalmente aos médiuns — instrumentos da revelação —, no sentido de que tomem todo o cuidado em preservar a condição de servir, evitando comprometerem-se em desvios que fatalmente lamentarão mais tarde.
Médiuns que descuidam da higiene mental e física;
que perseguem o conforto e o comodismo;
que rendem culto ao álcool, ao fumo e à mesa farta;
que estimam a lascívia;
que cultivam a maledicência;
que sentem prazer em desprezar e humilhar;
que não vigiam as suas atitudes e reações, nem buscam a oração contrita de quem reconhece a própria fraqueza e luta por vencê-la, jamais serão instrumentos eficientes nem úteis.
Se médiuns passistas, comprometerão o serviço de ajuda, associando suas vibrações desajustadas aos fluidos reconfortantes emitidos pelos benfeitores espirituais.
Se médiuns psicofônicos ou psicógrafos, nunca lograrão captar, com a desejada exatidão, o pensamento dos instrutores do espaço, transmitindo manifestações em que prevalecerão, sem proveito, fantasias anímicas.
Se médiuns intuitivos ou inspirados, lutarão com tremendas dificuldades para concatenar idéias, repetindo comentários sem originalidade e conceitos sem lógica.
Muitos abandonarão a tarefa, arrastados para o desequilíbrio pelas influências inferiores que insistiram em prestigiar.
Gostariam de ser “grandes aos olhos do Senhor”, como João, o Batista. Esquecem-se, entretanto, de que sua grandeza não foi mero fruto da graça divina, pois, como filhos de Deus, todos a usufruímos, e sim porque o precursor, revelando disciplina e perseverança, jamais sorveu a taça dos enganos terrestres.
Reformador – fevereiro, 1965