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A Decisão Radical
Paulo Antonio Ferreira

" Somente alcançaremos libertação quando atingirmos plena luz."
Pão Nosso - Francisco C. Xavier , ditado por Emmanuel (nº 101).

Todos nós estamos sujeitos a incertezas e mudanças drásticas neste planeta de expiações e provas em que vivemos; perdemos fortunas, perdemos nossos entes queridos, sofremos acidentes, perdemos nossos empregos e nossas casas, muitas vezes sem uma causa direta e muitas vezes de forma aparentemente injusta uma vez que alguns de nós são exemplos de virtude, que vivem praticando o bem, ótimas pessoas que jamais praticaram uma violência. Alguns se revoltam contra Deus, outros aceitam a perda conscientes de se tratar de uma expiação ou prova. Mas na sua maioria, após algum tempo, continuam a viver suas vidas da mesma forma que viviam antes, preocupados com os pequenos problemas do dia a dia, procurando ainda ser felizes na matéria, achando até que devem agradecer a Deus pelo ocorrido porque representa um resgate de promissória de uma dívida contraída em vidas passadas, sem se conscientizarem de que esse resgate não terá valor se continuarem contraindo novas dívidas.

Alguns ainda se lembram de melhorar a si próprios, mas na primeira situação de pressão exercida pela vida, voltam a seus hábitos antigos, revidando, vingando-se, respondendo à altura as ofensas, desertando do trabalho que lhe competia realizar, virando as costas ante um entendimento mais amplo, respondendo com provocações e hostilidades, com deboches, com atos de pouca moral, com demonstrações de raiva e violência, mergulhando em palavrões no santuário doméstico. Muitos de nós já freqüentam há anos as casas espíritas, fazem discursos inspirados, pregam passagens do Evangelho, contam longos casos exemplificadores da forma correta de proceder, censurando e julgando seus irmãos.

Não mudaram muito. Só diferem de uma pessoa ignorante dos ensinamentos espíritas pela sua fala, marcada por uma aparente evolução espiritual. Alguns visitam os doentes nos hospitais, evangelizam nos presídios, aplicam passes, distribuem sopa aos necessitados; mas dali a minutos estão hostilizando seus colegas de trabalho com os quais cultivam divergências. E assim a vida vai passando, as provas e expiações se sucedendo, deixando essas pessoas atônitas mas conformadas, graças ao estudo da Doutrina.

Quando oram, pedem proteção para que mais nada lhes aconteça e logo voltam a seu modo de existência que tem sido um hábito de seus espíritos há muitos séculos. Não conseguem ver nada além de seus interesses imediatos. Procuram manter a fé, mas recaem sempre nos mesmos erros, com freqüência acarretando sofrimentos para outra pessoas. Como sempre é o egoísmo e o orgulho que se disfarça, penetrando em todos os departamentos de suas vidas. Logo se arrependem, recriminando a si próprios por estarem recorrendo nos mesmos erros, apesar de já terem decidido se reformar. Mas este arrependimento só dura até que nova prova os faça demonstrar que na verdade evoluíram muito pouco. Infelizmente, as pessoas descritas acima constituem a grande maioria entre nós. Como disse Emmanuel em Pão Nosso: "vivemos num mar vasto de inferioridade ..."

Mas o que lhes falta? Se já estudam nos Centros Espíritas o Livro dos Espíritos, O Evangelho segundo o Espiritismo, o Pão Nosso, se fazem o Evangelho do Lar, o que mais será preciso para uma mudança definitiva?

Em muitos Centros Espíritas falta o exemplo, pois todos, inclusive os instrutores, estão nesse mesmo nível de evolução. Mas o exemplo de Jesus não seria suficiente? Sim, mas nós ainda não temos condições de entender em toda sua extensão o exemplo que nos foi dado. Interpretamos tudo à nossa maneira e fugimos das questões que nos deixam confusos ou que, se seguidas, implicariam numa mudança total em nossas vidas, coisa que não desejamos. Acreditamos que ainda não estamos em condições de dar esses passos. Achamos que só Jesus poderia agir neste mundo da forma que exemplificou, que não adiantaria tentar porque não funcionaria conosco.

Para indivíduos que se demoram na realização parcial do bem a evolução deve prosseguir lentamente, conforme sua capacidade de compreensão e de resistência ao mal e às tentações. Dentro desse contexto, até que estamos justificados de pensar e agir assim. E quando nos atrevemos a mudar, parece que nossos protetores espirituais nos preparam novas provas, nas quais não conseguimos passar, demonstrando a nós mesmos que ainda não estamos prontos para mudar, que não deveríamos ter nos atrevido a voar tão longe, que seria até uma pretensão pensar que já estaríamos em condições de passar para um nível mais elevado na hierarquia espiritual. Continuamos então no Centro Espírita, eternamente estudando, certos de que a evolução deva ser lenta, que demorará ainda muitas encarnações para melhorarmos e passarmos para o próximo nível da hierarquia, colocando para nós próprios objetivos bem próximos e fáceis de serem atingidos. É óbvio que dentro dessa forma de pensar, dessa auto limitação, isto também acabará por se tornar uma realidade.

Na verdade seria necessário uma revolução na forma de pensar, de encarar a vida. E essa revolução não é favorecida com o modo atual de ensinar, de evangelizar e de exemplificar, mesmo dentro do espiritismo. O ensino das Casas Espíritas é bom para os que estão começando. Mas quando se chega neste ponto da evolução ou a pessoa muda ou permanece estacionada por muitas encarnações, pagando dívidas antigas e acumulando novas dívidas para as vidas futuras, lendo e relendo as lições, participando ano após ano dos cursos do seu Centro Espírita.

É fato que apenas poucos conseguem realizar essa mudança radical, um em cada dez mil. Este é o significado do passar pela porta estreita e de que muitos são os chamados e poucos os escolhidos. Essa mudança não pode ser ensinada: a partir deste ponto da evolução a pessoa tem que caminhar sozinha. Talvez até não seja mesmo para ser feita enquanto o espírito estiver encarnado, mas sim para quando já estiver no mundo espiritual, onde terá mais condições de realizar os passos necessários. Talvez, em muitos casos, seja mesmo uma pretensão a pessoa pensar que já pode encarar essa mudança, sem antes passar por tudo que lhe esteja reservado nesta vida.

Mas para quem já merece mudar, para quem já está pronto e deseja tomar esta decisão radical, e existem exemplos de pessoas que o fizeram, terá de fazê-lo sozinho, somente o indivíduo com o auxílio de nosso mestre querido, Jesus. E a partir dessa decisão, dessa mudança, não mais deixará de acreditar que o mais importante de tudo, a chave para todos os paradoxos, é justamente esse: Deus. Agora nada mais será tão importante, tudo estará compreendido no Amor Divino. O filho que perdemos não foi na verdade perdido, está em Deus, e teremos finalmente o grande e verdadeiro amor pelo nosso próximo, que antes era só um aspecto teórico, longe de nosso alcance. Teremos finalmente feito nossa Reforma Íntima.

Bem, mas ainda não a fizemos, apenas falamos sobre ela. Que tal começarmos procurando fazer conforme foi dito, e colocarmo-nos a sós com Deus? Esta a parte mais difícil, porque Deus já está conosco mas não nos permitimos estar com Ele. Se duvidam, experimentem. Logo surgirão pensamentos sobre coisas com as quais estivemos preocupados há milhares de anos. E será preciso aprender a nos desligarmos deles, até dos mais preciosos para nós, até que não tenhamos mais nada ocupando nossa atenção. Só então poderemos nos voltar para Deus. Isto não quer dizer que precisaremos nos afastar de tudo. Apenas que deveremos aprender a ter desapego e fé. Desapego para nos desligarmos de todo sentimento de egoísmo, atingindo o esquecimento total de nós mesmos; para saber que não somos donos de nada, nem de nossos entes queridos, que tudo pertence a Deus. E fé para acreditar que aconteça o que acontecer, terá sido pela Vontade de Deus que é infinitamente justo e bom. Mas então o Amor de Deus para conosco crescerá em nós, pouco a pouco, até nos arrebatar de tal forma que não precisaremos mais estar preocupados com isto, tudo irá se encaixando automaticamente.

Por outro lado essa decisão não livra a pessoa de passar pelas provas desta vida, até pelo contrário, como dissemos acima, as provas deverão se intensificar. Este o preço que devemos pagar por termos tomado esta decisão, de nos candidatarmos a subir na hierarquia.

Mas não foi para fazermos esta Reforma Íntima Radical que estamos aqui? Ou será que já nos esquecemos do porque viemos?

Rio de Janeiro, 16 de junho de 1999.


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