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Psicologia
Paulo Antonio Ferreira

Nossa intenção aqui não é a de dar uma noção completa da psicologia, mesmo porque não temos conhecimento suficiente para isso, mas apenas de trazer alguns conceitos que podem ser úteis para desfazer as confusões que possam surgir entre o que estudamos no Espiritismo e o pouco que aprendemos de Psicologia, tentando relacionar paralelos entre os conceitos espíritas e os conceitos psicológicos de interesse para nós.

A palavra psicologia é derivada de duas palavras gregas: psiquê que significa "alma", e logia que significa "estudo de". Os filósofos gregos, observando e descrevendo o comportamento e a experiência do homem tratavam a conduta do indivíduo como produto das manifestações da alma. Já Aristóteles dizia que "nada há na mente que não tenha passado pelos sentidos", querendo dizer assim que as idéias eram produto das influências do meio sobre o organismo. Hoje a Psicologia não é a ciência da alma, mas a ciência do comportamento e da experiência do homem. Quando um psicólogo fala da alma humana, se ele não for religioso, estará falando de uma alma material, da mente enquanto função cerebral.

Todo comportamento tem uma causa ou motivo. Segundo a Psicologia os motivos são decorrentes de uma necessidade. Há um provérbio árabe que diz: "Podemos levar um cavalo à fonte, mas não podemos fazê-lo beber". O cavalo só beberá se algo internamente o levar a isso, como uma necessidade que vai gerar o motivo. Portanto a Psicologia define o motivo como um fator interno que inicia, dirige e sustenta o comportamento do indivíduo. No passado esse motivo era o destino: tudo o que fazíamos era uma fatalidade. Posteriormente, no período racional, era a razão que determinava o comportamento do homem. Mais recentemente, Descartes estabeleceu que alguns motivos vinham da parte racional do homem e outros nasciam dos seus instintos. Com a Psicologia evoluímos para o conceito de que as necessidades são as fontes básicas das energias motivadoras.

Com o Espiritismo podemos acrescentar aos motivos acima as influências espirituais, tanto as anímicas quanto as dos desencarnados, como fonte de motivação para nosso comportamento. É importante notar que uma não exclui a outra, ou seja o Espiritismo não exclui a Psicologia e vice-versa. Da mesma forma, o Espiritismo e a Parapsicologia não são mutuamente exclusivos, havendo fenômenos que são melhor explicados por um do que pelo outro.

As necessidades podem ser classificadas em cinco tipos:

  1. Fisiológicas
    Fome, sede, respiração, descanso, exercícios físicos, moradia, proteção dos elementos e necessidade sexual.
  2. Segurança
    Proteção contra o perigo, segurança futura, preparação para a vida
  3. Sociais
    Participação, associação, aceitação, amizade e amor, prestígio, auto-afirmação social
  4. Satisfação pessoal
    Auto-respeito, auto-confiança, autonomia, competência, conhecimento, reputação, reconhecimento, apreciação
  5. Auto-realização
    Compreensão das próprias potencialidades, autodesenvolvimento, criatividade

Uma necessidade satisfeita não é mais um elemento de motivação. Quando um nível de necessidades está razoavelmente satisfeito, surgem as necessidades de nível imediatamente superior que passam a motivar. É fácil ver porque poucas pessoas conseguem atingir a auto-realização.

Podemos ser impedidos de alcançar certos objetivos que satisfariam nossas necessidades por causas internas, como falta de habilidades específicas, ou externas, como falta de dinheiro. O indivíduo adota então um comportamento de reação contra a barreira. São exemplos de reações o comportamento agressivo (tentar vencer pela força), a regressão (passar a agir como criança), a sublimação (dedicar-se a atividades religiosas), a resignação (desativar a necessidade) e o comportamento assertivo (comportamento adulto).

Uma necessidade gera uma tensão e sua satisfação relaxa a tensão. Algumas tensões determinam comportamentos dirigidos a objetivos concretos, realizando-se assim a nível de realidade, enquanto outras levam apenas a pensamentos, ficando no nível da irrealidade.

Para os Espíritas, aquilo que a Psicologia chama de irrealidade, pode ser mais real que o mundo material, sendo a verdadeira vida aquela que começa após o desencarne. O mundo da matéria é então considerado como o mundo das ilusões.

Continuando, diremos que os motivos que levam uma pessoa a agir podem estar ocultos em sua consciência. Se um indivíduo hipnotizado for ordenado para sair com óculos escuros em um dia de chuva ele o fará e dirá que pensou que o sol ia se abrir, ou que estava com uma irritação na vista. Esses motivos são chamados, em Psicologia, de racionalizações.

A Consciência é a parte lúcida em nós. Ela é a própria personalidade, podendo ser dividida em Ego, Id e Superego. O Ego, ou consciência propriamente dita, é a personalidade enquanto atua no momento presente. Sua função é ajustar o homem à realidade física e social. O Superego tem funções semelhantes, interiorizando as normas, as leis, as exigências dos pais, e da sociedade. O Id, ou inconsciente, é onde estão as necessidades ou impulsos básicos do homem, os fatos não evocáveis, as vivências reprimidas ou esquecidas, as energias instintivas. Não reconhece valores, bem, mal e moralidade, não se orientando por normas sociais. Pode ser o responsável por comportamentos estranhos, devido a motivos desconhecidos e não óbvios.

Para o Espiritismo o Espírito imaterial é o ser inteligente. Quando encarnado toma o nome de Alma, esquecendo toda a experiência das vidas passadas. Entretando, como ensina Kardec, ficam a intuição ou a voz da consciência, e as tendências instintivas:

"...Suas atuais tendências más indicam o que lhe resta a corrigir em si próprio e é nisso que deve concentrar-se toda a sua atenção, porquanto, daquilo de que se haja corrigido completamente, nenhum traço mais conservará. As boas resoluções que tomou são a voz da consciência, advertindo-o do que é bem e do que é mal e dando-lhe forças para resistir às tentações."

(Allan Kardec. "O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo VI. Bem Aventurados os Aflitos Item 11.Esquecimento do Passado.)

Segundo Hermínio Miranda (em As Sete Vidas de Fenelon), o inconsciente é nossa individualidade, nosso espírito imortal completo, nosso Eu, com toda a sabedoria acumulada durante muitas vidas, a fonte da intuição. Enquanto que o consciente, uma parte do espírito, é o que normalmente denominamos de alma, nossa razão, nossa personalidade nesta vida atual. Para Hermínio ainda, a alma instala seus sensores no hemisfério cerebral esquerdo, o verbal, sendo sua linguagem expressa em palavras; enquanto o espírito, tem seus sensores implantados no direito, não verbal, simbólico, sendo sua linguagem expressa em idéias. Decorre daí a dificuldade de comunicação, enquanto encarnado, entre estas duas partes do mesmo Espírito, dificuldade esta que é temporária, sendo removida quando o espírito se afasta do corpo, seja pela morte ou seja nos sonhos.

Há uma reconhecida dificuldade para expressar esses conceitos por falta de palavras adequadas. Para evitar a criação de novos termos foram usados alma e espírito. Não é demais frizar entretanto que o espírito é um só, sendo a divisão acima apenas didática. O importante é que se tenha entendido o que se quiz dizer e não as palavras usadas para expressá-lo.

Estando o espírito encarnado, ligado ao corpo material pelo perispírito "átomo a átomo, molécula a molécula", sendo portanto constituído de órgãos dos quais os órgãos materiais são "mera cópia imperfeita", parece ser lógico entender que uma parte correspondente do perispírito está ligada ao cérebro esquerdo e uma outra parte ao cérebro direito. A parte ligada ao cérebro esquerdo, é a que participa do aprendizado da expressão verbal, do comanda da mão direita, ocupada com a escrita e a maior parte das tarefas normais; enquanto que o cérebro direito, ficando mais ocioso, se desenvolve para um maior contato espiritual, em linguagem simbólica. Fazendo uma analogia com o computador, podemos dizer que o cérebro esquerdo é a nossa RAM, e o direito, nosso HD. Na RAM residem os programas que estão sendo executados (vida atual) e no HD todos os outros programas que já foram executados (vidas passadas) mas que estão agora (isto é, nesta vida) aparentemente inativos. Esta a explicação de nosso esquecimento das vidas passadas enquanto reencarnados: a alma, a parte consciente do espírito, atua no cérebro esquerdo, na RAM, sem acesso a todos os dados do HD, a não ser àqueles transferidos especificamente, como na Terapia de Vidas Passadas e nos momentos de inspiração.

O espírito quando reencarna traz uma missão de aprendizado, de resgate de faltas passadas com as pessoas com quem vai conviver, de expiações e de provas para testar sua evolução. Muitas vezes essa missão é escolhida pelo próprio espírito que não consegue se livrar do remorso pelo mal que tenha causado em vidas anteriores. Após o nascimento o espírito encontra-se confuso, amortecido, ligado a um cérebro ainda sem desenvolvimento, tentando expressar-se através dele. Aos poucos o cérebro vai se desenvolvendo e aprendendo a interpretar os impulsos que recebe do mundo exterior através dos sentidos. Recebe também intuições interiores, provenientes do espírito, que algumas vezes são conflitantes com as solicitações externas. Esta situação conflitante pode permanecer não resolvida por toda a vida, sem que o indivíduo saiba se deve ouvir a voz que lhe aconselha internamente ou se atende à lógica do mundo. Procura provas da existência do lado espiritual e não as encontra de forma convincente, recebendo por outro lado argumentos materialistas para se ligar apenas àquilo que pode ser comprovado e ser de utilidade ao seu progresso material. O espírito fica assim em dificuldade para se expressar plenamente nos atos conscientes que são elaborados no cérebro esquerdo e que em muitas pessoas é o único atuante durante o estado em que permanece acordado, pois graças ao treinamento recebido, foi o único que se desenvolveu no relacionamento com o mundo. Devido à grande intensidade dos impulsos materiais que nele penetram, ficam muito reduzidos os impulsos que lhe chegam do espírito, provenientes principalmente do cérebro direito, limitando-se a intuições sutis que são quase sempre suplantadas pelo raciocínio material. Daí advém o "esquecimento" das experiências das vidas passadas que, na verdade, continuam no espírito mas que não conseguem ser recebidas a nível consciente. Acrecente-se a isso o problema da diferença entre a linguagem verbal do cérebro esquerdo e a linguagem do cérebro direito, que é a linguagem do espírito, simbólica, intuitiva, na forma de hologramas, conforme nos é ensinado no livro "A Estrutura da Matéria segundo os Espíritos".

Quer me parecer ser esta a grande lacuna, o grande vazio que existe na vida de todos nós. A falta de uma explicação de quem somos, do que estamos fazendo aqui, de para onde vamos, enfim, de uma filosofia ou ciência que nos explique de forma lógica, coerente, o sentido da vida para que tenhamos um objetivo, um caminho demarcado orientando nossos atos em direção a um crescimento de nossa personalidade. Uma personalidade adulta deve atingir uma maturidade emocional que se manifesta por aceitação de si mesmo, sabedoria, auto-confiança, respeito ao próximo, paciência, aceitação de responsabilidades, capacidade de recuperar o ânimo, senso de proporção, objetivismo e senso de humor. No Espiritismo temos as respostas para todas essas questões, o guia moral e ético para as nossas ações, a cura de nossos males e a estruturação de nossa personalidade através a Reforma Íntima.

Portanto, o Espiritismo não exclui a Psicologia mas a amplia.

Rio de Janeiro, 30 de Junho de 1999.


Referências:

  • "As sete Vidas de Fenelon" de Hermínio C. Miranda, Ed. LaChâtre, 1ªed, 1998.
  • "Psychology", Gardner Lindzey, Calvin S. Hall, Richard F. Thompson. Worth Publishers, Inc. 1976.
  • "Psicologia Moderna" de Antonio Xavier Teles. Ed.Ática, 1978..
  • "Psicologia Geral" de Lannoy Dorin Ed. do Brasil, 1978..